Alline Calandrini: “Os clubes têm que investir no futebol feminino por incentivo, não por obrigação”

Texto: Leticia Capp
Produção: Alexia Faria
Correção: Alexia Faria e Júlia Cunha

O sonho de crescer e se tornar jogador de futebol profissional nunca foi só de menino. A carreira no futebol é difícil, dói demais, a caminhada é complicada e para o atleta conseguir êxito no ramo tem que ter dom, mas também tem que ter um empresário, um investidor, alguns bons contatos e dinheiro.

Se vocês acham que o futebol masculino não dá a devida oportunidade para o garoto que se esforça diariamente para realizar seu sonho, e não encontra uma brecha ou um empresário para ajudar nesse caminho, imaginem essa dificuldade multiplicada por 2, 3, 4… Essa é a luta de quem sonha em ser uma atleta de futebol feminino.

A caminhada também é muito difícil e triste para as meninas, muitas delas jogam o fino da bola, porém, desistem no meio do caminho pela dificuldade de ingressar no esporte.

O Jogadelas conversou com quatro jogadoras profissionais do Corinthians. Alline Callandrini (Zagueira), Marcellinha (Meia), Gabi Zanotti (Meia) e Cacau (atacante), ambas partilham do mesmo pensamento, de que a baixa visibilidade, o pouco investimento e incentivo da sociedade muitas vezes destroem as carreiras das meninas que sonham em jogar bola.

As nossas quatro entrevistadas conseguiram passar por cima das dificuldades, realizaram seus sonhos, e nos contaram como tudo começou.

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Alline Calandrini (Zagueira) e Julia Cunha (Co-fundadora Jogadelas) Foto: Caroline Akemi

A primeira história é a de Alline Calandrini. Também conhecida como Calan, ela tem 30 anos, e atua na zaga corinthiana, mas já passou pelo Clube Atlético Juventus e pelo Santos Futebol Clube.

Nascida em Macapá (Amapá), Calan cresceu jogando bola com os meninos no colégio, na rua e até em escolinhas porque não encontrava uma escolinha feminina em sua cidade natal. Sempre com o apoio da família, a zagueira gravava vídeos e mandava para pessoas grandes no ramo. Ela relembra que chegou até a enviar um vídeo para uma jogadora de vôlei que era sua conterrânea e estava nos Estados Unidos, mas não obteve retorno algum.

“Foi um sonho que foi ficando distante. Confesso que com 13, 14 anos cheguei até a fazer outro esporte, joguei basquete porque pelo menos tinham clubes que existiam a modalidade do feminino”.

Acontece que algumas vezes as situações colaboram. Alguns chamam de sorte, outros de destino, porém foi isso que ocorreu com a Calan. A atleta foi para o Rio de Janeiro junto com seus pais e, a princípio ficariam um ano por lá, porque seu pai iria concluir um curso profissionalizante.

“A gente decidiu conhecer Teresópolis e lá é onde fica a Granja Comary, mas eu nem tinha essa noção. Quando estávamos subindo para o hotel vimos um monte de meninas treinando na Granja. Pensei que era apenas uma comemoração de final de semana, porém meus pais insistiram e fomos até lá. Tentamos diversas vezes uma oportunidade para alguém nos ouvir”, relembra.

“Depois de horas por lá, meu pai conseguiu falar com o responsável pela seleção que estava treinando, na época era a Seleção sub-20. Ele implorou, e inventou uma história de que viemos do Amapá só por causa disso e o cara se sensibilizou e disponibilizou um primeiro teste”, completa.

Nesse primeiro teste, a jogadora sequer encostou na bola, afinal, foi seu primeiro contato, sem preparação nenhuma e as meninas já treinavam desde novinhas. O responsável disse que se o sonho da atleta fosse real, ela deveria se deslocar para São Paulo, pois era aonde realmente tinha futebol feminino. Então ele passou contato de dois times em que ela teria possibilidade de treinar e competir já que ela só precisava ser lapidada para realizar seu sonho.
“Duas semanas depois minha vida mudou da água para o vinho, eu era uma burguesinha, morava na Zona Sul do Rio de Janeiro, e passei a morar na Zona Leste de São Paulo, dividindo casa com umas 20 meninas. Mesmo assim eu ainda via o sonho da Seleção brasileira muito distante, porque eu estava muito atrás de todas as meninas que já estavam encaminhadas. Um ano e meio depois eu tive a oportunidade da Seleção brasileira e pensei: eu vou viver disso!”, comenta.

Para Calan, a base familiar foi essencial. O começo é sempre difícil e a necessidade do apoio da família fica cada vez maior. Ela conquistou o seu sonho, e enfatiza que sem seus pais, jamais teria chegado aonde chegou.
Perguntamos para a atleta sobre a falta de apoio na base feminina, e ela nos disse que hoje vê uma base mais ou menos, isso por conta da Seleção Brasileira, que ainda é muito melhor do que anos atrás. A Copa do Mundo feminina sub-20 será transmitida pela Band e a Calan foi convidada pela emissora para comentar. Com isso, ela estudou bastante, concluiu que os outros países evoluíram nessa questão porque cuidam da base, já o Brasil não tem bons resultados porque estagnou.

“Quando eu comecei não existia campeonato paulista sub-10, sub-15, só existia a Seleção sub-20 que pegava as meninas novas. O complicado do futebol feminino é que não existe base. O Santos vai montar uma base agora, mas o Corinthians ainda não tem base, e é isso. O futebol feminino não revela novas atletas e ficamos dependentes de nomes como Martha e Cristiane. Perdemos meninas que precisam crescer jogando. São erros coletivos da sociedade, nosso, da prefeitura, é um todo, infelizmente”, conclui.

A CBF estabeleceu no regulamento que os clubes que não tiverem times femininos disputando campeonatos nacionais a partir de 2019, estarão fora da Libertadores. Essa “regra” gerou bastante polêmica, já que o futebol feminino não deveria ser apoiado por obrigação, e sim por incentivo a causa.

Quando perguntada sobre o que achava disso, a atleta respondeu. “Os times têm que entender que a partir do momento que a gente veste a camisa de um clube grande, como eu vesti a do Santos e agora visto a do Corinthians, a torcida vai cobrar resultado positivo. Se eu fosse os times que ainda não tem futebol feminino, já teria começado devagarinho esse ano, organizando para ano que vem estar preparado. Eu prefiro que os times tenham para, de fato, incentivar e apoiar, não por obrigação. Eu não sei como vai ser ano que vem, eu sei que não gostaria que dessem a camisa por dar, eu sei que é um processo, mas que não comecem de qualquer jeito”.

Para finalizar a entrevista, perguntamos sobre suas expectativas para a Copa do Mundo Feminina de 2019.
“Vou ser sincera, a expectativa não é muito grande porque não vejo a gente evoluindo taticamente, nem fisicamente. Vejo outras seleções bem a frente e bem acima da gente. Se nós tivéssemos gerações acompanhando e evoluindo, talvez a gente não precisasse depender tanto das mesmas meninas. Eu torço muito para que dê certo, mas não passamos confiança há muito tempo. É obvio que eu quero que a gente vença, tenho certeza que uma medalha pode mudar um pouco o nosso cenário, no fundo tenho esperança dessa medalha por isso, uma mudança não para mim, mas para as meninas que estão começando agora”, disse Calan.

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Reprodução: Instagram/@alline.calandrini

Fala, torcedor!

Um dos nossos seguidores e torcedor corinthiano, Gabriel Morgues, fez uma pergunta para a Calan.
GM (torcedor): “Qual o principal aspecto que você acha para o Corinthians estar apoiando o esporte feminino e estar no patamar que está no campeonato?”.
Calan: “Antes era Audax Corinthians, o Corinthians dava a camisa e nós tivemos a oportunidade para mostrar resultado. Nós ganhávamos tudo e eles abraçaram o futebol feminino. Os resultados anteriores do Audax Corinthians foi o que eu acho que fez com que o ‘Corinthians grande’ abrisse as portas, mas eles não abriram isso hoje, foi tudo indo aos poucos. Os nossos resultados são surreais, eu acho que o de hoje é disparado o maior time do campeonato, nas duas competições. É um baita time, tem as melhores jogadoras, está num nível diferenciado e com a estrutura que temos aqui no Corinthians não ter como não ter um resultado positivo”.

Equipe Jogadelas

O Jogadelas apoia 100% o futebol feminino e acredita em uma melhora no esporte, tanto dentro dos clubes quanto nas arquibancadas. Que a sociedade passe a incentivar os times femininos para darmos oportunidade às futuras gerações.

Por que não comemorarmos um título de Copa do Mundo Feminina no ano que vem? Ou outro troféu feminino do seu clube de coração? Fica aí o questionamento e nossa busca por uma melhora.

Agradecemos imensamente ao Corinthians, que disponibilizou a Alline para a entrevista, e principalmente nosso total agradecimento à atleta e sua assessoria, por terem nos dado a honra de realizar essa entrevista. Desejamos sucesso a todos!

E fiquem ligados! Essa é apenas uma das quatro entrevistas que fizemos. Em breve lançaremos as outras. Nos acompanhe nas redes sociais!

1 thought on “Alline Calandrini: “Os clubes têm que investir no futebol feminino por incentivo, não por obrigação”

  1. Ou seja, a mudança tem que começar agora. Os envolvidos com o futebol feminino tem que pensar na evolução, no futuro. Pra daqui há 10 anos nao precisarmos está repetindo o mesmo asaunto. Sucesso Alline 🖤 Representa muito 👏🏼

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