Marcelinha: “A gente tem esperança de cada ano estar melhorando. No Brasil falta essa questão da base mesmo”

Produção: Alexia Faria e Júlia Cunha
Texto: Layla Seabra
Revisão: Alexia Faria

Marcelinha, meio-campista do Corinthians, teve uma carreira acarretada de dificuldades e vitórias como todo atleta. Incentivada pelo pai, seguiu firme na busca pelo sonho de ser profissional, porém, os obstáculos enfrentados foram e ainda vêm sendo um tanto problemáticos. Uma vez que escolinhas de futebol direcionadas a meninas eram praticamente inexistentes em sua infância. Sendo assim, Marcellinha integrou-se em equipes masculinas durante essa fase.

“Iniciei em escolinha de menino, na verdade, era bem difícil encontrar escolinha para meninas, e até hoje em dia tem muito pouco”, comenta.

E por ser menina, frequentemente era vetada dos campeonatos, mas mesmo assim ela acredita que foi, de certo modo, uma experiência boa por ter adquirido amadurecimento de técnicas, enfrentando e superando dificuldades, além de se aperfeiçoar taticamente por ser um estilo de jogo mais “bruto”.

“Teve os pontos positivos. Jogar com os meninos parece que você se desenvolve mais rápido. Mas também tinha o ponto negativo, que era a falta de competições. Porque não podia competir junto com os meninos, então isso daí é bem ruim”, completa. Reprodução/Instagram

A meio-campista Marcelinha apontou também tópicos importantes a serem discutidos sobre a questão do porquê o futebol feminino é tão desvalorizado em solo brasileiro. O principal deles foi a falta de incentivo pelos clubes oficiais que atuam no país.

“Para mim, todos os clubes deveriam começar a investir. Todo mundo reclama da falta de divulgação. Os torcedores dos grandes clubes perguntam por que não têm um time feminino também. Então eu enxergo assim, se os clubes investirem nisso, teriam uma aceitação muito boa por parte das torcidas e seria um grande incentivo para a gente”.

Apesar das barreiras, a jogadora acredita na modalidade. O bom desempenho da direção dos times é parte crucial, e que reflete diretamente na qualidade das atuações dentro e fora de campo. Na maioria dos casos, as instituições negligenciam os trabalhos das mulheres de tantas formas que é difícil enumerá-las. Por exemplos, desde a falta de verba, que abala a estrutura dos locais de treinamento, tornando-os pouco acessíveis e comprometendo o desenvolvimento do preparo físico das atletas, à problemática infinita do desfasamento dos esquemas táticos em atividade.

“Eu acho que estamos colhendo frutos do nosso trabalho. O projeto que o Corinthians está fazendo para este ano, desde a diretoria, pessoal do marketing, o elenco que montaram, entre outros. Eles procuraram trabalhar com um pessoal de qualidade, tanto dentro quanto fora de campo em relação ao caráter, ao tipo de pensamento. Então isso ajudou bastante, a gente se dá muito bem e isso reflete dentro de campo, além da dedicação”.

Marcelinha e Júlia Cunha (co-fundadora do Jogadelas) na entrevista na Fazendinha Reprodução/Jogadelas

A falta de incentivo ocorrida dos principais times reflete até mesmo no nivelamento tático da Seleção Brasileira. Como a base não é bem fundamentada por aqui, as jogadoras “pulam” de categoria frequentemente.

Ainda que o condicionamento físico e monitoramento tático não estejam aperfeiçoados, fato que deve ser trabalhado intensamente desde as equipes mais novas, como já acontecem na versão masculina do futebol. Dessa forma, então, as atletas saem prejudicadas nas competições e o resultado é visível, como explicou a entrevistada sobre sua perspectiva.

“A gente tem esperança de cada ano estar melhorando. Eu acho que assim, o Brasil sempre teve grandes jogadoras, mas a gente sabe que em termos de evolução tática os outros países, como da Europa e EUA, eles investem mais nisso, e no Brasil falta essa questão da base mesmo. Porque às vezes você já pula direto para uma categoria adulta, e nos outros países, eles começam com uma formação desde a base. Isso faz diferença”.

Por fim, pode-se notar que, ainda que esteja longe da limitada visão do torcedor brasileiro sobre mulheres no futebol, independentemente da posição e patamar que elas estejam inseridas, nenhuma negligência conferida ao caso delas passa despercebido. E elas sentem isso na pele todos os dias.

 

Equipe Jogadelas

O jogadelas de todas as formas, agradece a disponibilidade da jogadora para a entrevista. Agradece também ao Corinthians e toda a assessoria que abriu um espaço para conhecermos parte do cotidiano delas.
Nós já nos prontificamos em poder ajudar a incluir cada vez mais o esporte feminino na mídia e tudo que pudermos fazer que estiver ao nosso alcance, faremos.
Fiquem ligados, essa é a segunda entrevista e faltam ainda mais duas que serão lançadas em sequência!

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