Cacau: “A grande dificuldade é o país ser machista”

Produção: Alexia Faria e Júlia Cunha 
Texto: Bianca Miquelutti
Revisão: Alexia Faria

Carina Fernandes Gomes, chamada de Cacau, é atacante do time feminino do Corinthians. A atleta foi campeã da Libertadores da América pelo Timão em 2017, e continuou na equipe nesta temporada. Se hoje Cacau é reconhecida por seu talento e habilidade, no passado, a jogadora enfrentou inúmeras dificuldades para conquistar o seu espaço no futebol.

Sem times de base para que a atacante fosse preparada, e jogando bola na rua com meninos, Cacau nos disse que o motivo principal para a falta de incentivo da modalidade feminina é o grande machismo que existe no Brasil. “Têm meninas que tinham até vergonha de jogar e para mim foi difícil, assim como foi para as outras”.

A atacante nos contou que começou a pensar na carreira de jogadora quando entrou para o time da sua escola durante o ensino médio, e começou a ganhar muitos campeonatos. Através do destaque do seu time ela ganhou bolsa no Unisantana para estudar e jogar profissionalmente. “Digo que não fui eu que escolhi o futebol, foi o futebol que me escolheu”.

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Reprodução/Instagram

Após rodar por vários clubes no interior de São Paulo, em 2008 Cacau foi atuar na Espanha no Extremadura. Voltando para o Brasil, em 2010, a jogadora foi para o time da Portuguesa, e em 2011, ao jogar no Centro Olímpico, a jogadora conheceu a comissão que atualmente trabalha no Corinthians. Em sua carreira, Cacau também tem passagens pelo São Caetano, Ferroviária, Corinthians-Audax, e a atacante se mantém na mesma equipe desde 2016.

Sobre a obrigatoriedade dos grandes clubes masculinos em terem o time feminino para que possam participar da Libertadores da América no próximo ano, a jogadora destacou a importância da iniciativa, mas alertou sobre a negatividade da regra ao ser implementada de qualquer jeito. “A gente não quer que seja uma coisa malfeita. As meninas que estão indo, por exemplo, para um São Paulo e para um Palmeiras, precisam ter toda aquela estrutura.  E se for feito pelos times grandes, tem que ser feito de forma profissional, direitinho como é aqui no Corinthians”, opina.

Cacau nos contou que a visibilidade para as equipes femininas surge quando os bons resultados aparecem. Uma vez que até as torcidas organizadas acabam comparecendo nos jogos femininos. A mídia social do Corinthians também é uma peça importante nessa construção, já que o marketing do clube ajuda na divulgação do trabalho das jogadoras. “Acaba alcançando muito mais gente, vamos jogar lá na Bahia, e a Fiel Salvador está lá e todo mundo conhece. É mais pessoas de fora, do que realmente daqui. Em São Paulo deveria vir muito mais torcedores assistir os jogos, mas aos poucos. Se for ter os outros times, vai aumentando a visibilidade”, comenta.

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Reprodução/Facebook Arena Corinthians

Os bons resultados da equipe do Corinthians nesta temporada são resumidos em uma palavra para Cacau. Trabalho. “Independente se temos ótimas jogadoras, e representantes da Seleção, o nosso grupo se classifica como um grupo trabalhador”.

Cacau falou do papel da comissão técnica do Corinthians que, através da organização e dos treinos programados, deixa o time preparado para todos os jogos com todas dando o máximo de si para serem titulares, e jogarem. E, apesar da competitividade do esporte em busca da titularidade no time, Cacau nos revelou o companheirismo e o suporte simultâneo das atletas uma com as outras. “A gente tem um grupo muito maduro e bom para trabalhar. Fora do campo a gente se dá muito bem, então acaba sendo uma disputa bem sadia dentro de campo”, declara.

Ao falar sobre a Copa do Mundo feminina do ano que vem, a visão da atacante é semelhante à de suas parceiras de time. Cacau falou que o Brasil está um pouco abaixo das outras Seleções, como a dos Estados Unidos e da Alemanha, por exemplo. “Eu acho que algumas coisas precisam ser mudadas dentro da CBF”.

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Reprodução/Jogadelas

Cacau concluiu que a cultura machista atrasou por muito tempo o trabalho do futebol feminino no país. A ausência da base faz com que não haja algum tipo de estrutura que apoie, prepare meninas para o futebol e para a Seleção Brasileira.

Mas a jogadora falou que as coisas estão mudando, e que a evolução está acontecendo pouco a pouco. “Eu lutei lá atrás, roí o osso para que hoje as meninas estarem aqui vivendo tudo isso. Daqui uns anos, os clubes devem ter o futebol feminino e devem ter a base, assim como o Santos já tem e o Corinthians provavelmente vai ter. E assim vai, um ajudando o outro”, finaliza.

Equipe Jogadelas

Hoje terminamos a primeira série de entrevistas com jogadoras do futebol feminino. E isso não seria possível sem a oportunidade que a comunicação do Corinthians nos deu.

Então, mais uma vez deixaremos nosso agradecimento a oportunidade que o clube nos proporcionou, junto as jogadoras Alline Calandrini (na época ainda jogadora), Marcelinha, Gabi Zanotti e Cacau. Garotas, toda a equipe do Jogadelas admira vocês, e desejamos a todas vocês a toda a sorte do mundo, seja em campo ou fora dele.

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