Pitbullizou: a problemática da política no Futebol

Esporte Clube Bahia é um time de futebol brasileiro que parece não viver no Brasil. No último domingo, em partida contra o Palmeiras, deu um verdadeiro show antes mesmo da bola rolar, com a presença ilustre de crianças portadoras de deficiências entrando de mãos dadas com os jogadores. Até a torcida adversária tirou o chapéu. Durante o ano, a gestão do Clube veio se preocupando com sua imagem em um contexto social e criando adesões à todos os públicos aos jogos com o Núcleo de Ações Afirmativas do Bahia, minorias ou não, uma vez que têm consciência de que são as pessoas que movem o time, que o ato torcer é um contexto social, ao contrário, não haveriam torcedores e, portanto, não haveria Esporte Clube Bahia.

Qual a ligação disso com os casos polêmicos do último domingo? Bom, todas. Acontece que estamos pisando em território do “País do Futebol”, onde esse esporte tem o poder de representatividade de uma imensa parte de brasileiros, além de gozar de lugar de destaque nas grandes mídias. Não há ninguém que não conheça o futebol por aqui. O ato de viver em sociedade reflete, incontestavelmente, em nossas ações cotidianas e perspectivas, sendo, assim, uma espécie de motor de comportamentos, normalmente generalizados. É certo que, como muitos vêm argumentando, não é necessário influência social para que um indivíduo aja, por exemplo, dentro ou fora da lei, e por isso voltamos um questionamento: até que ponto somos influenciados ou não por um coletivo? Qual o limite de coesão de ideias? É um papo daqueles que se têm numa mesa de bar com os amigos, mas agora também vai ser papo de estádios.

Às 16h da tarde do último dia 16 deste mês, uma fração da torcida do Atlético Mineiro, em partida contra o rival, Cruzeiro, reproduziu o seguinte canto: “ô cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar viado”. Matar viado.

Em paralelo a esse acontecimento, do outro lado da telinha, o jogador palmeirense, Felipe Melo, dedica o gol marcado ao mesmo candidato.

Ambas situações foram criticadas e surgiu uma onda de refutações em prol das mesmas. Algumas coisas devem ser esclarecidas.

Reprodução: Terceiro Tempo

A ação do jogador palmeirense não é condenável, pois vivemos em um país democrático e, portanto, o mesmo e qualquer outro indivíduo é livre para expressar sua  opinião política, seja em gramado ou arquibancada, desde que sua opinião se limite apenas em ser uma opinião. A diferença entre os ocorridos não é sutil, pois o que os torcedores do Atlético fizeram foi um caso de apologia ao crime de ódio, à violência, de um grupo social que, comprovado estatisticamente, pagam pelas consequências do preconceito enraizado no país com a própria vida. O que a manifestação a favor do candidato diz respeito a essas duas situações distintas? De alguma forma, a partir dos pronunciamentos do político ao longo de sua carreira, incitando preconceito e agressões, o público presente na arquibancada do Mineirão encontrou uma legitimação indireta de tais atos, ainda que criminosos.

Voltamos, portanto, à questão posta anteriormente: até que ponto somos influenciados ou não por um coletivo? Qual o limite de coesão de ideias? Os torcedores não precisam, necessariamente, de influência social para pensar da forma que pensam, mas foram impulsionados pela coesão das ideias que o candidato promoveu ao longo dos anos, normalizando tal perspectiva, naturalmente preconceituosa, e desse modo transformaram-se num meio de propagação de violência com um viés político que os legitima. A violência contra mulheres, negros, LGBTQ+ dentro do mundo futebolístico vai muito além de apenas uma confusão em estádios, afinal, ainda se lembram que estamos no País do Futebol? O que acontece nessa bolha é reflexo da nossa sociedade, uma vez que nos auto afirmamos como uma nação intimamente ligada a esse esporte.

Devemos ter em mente que o futebol, em todas as nações além do Brasil, não é exclusivo para apenas um grupo de pessoas, até mesmo porque o espaço de execução é público. Uma torcida não é composta somente de homens héteros, brancos (e bem folgados em sua maioria, se nos permitem dizer) que encontram lógica na ofensa à pessoas que não se sentem da mesma maneira ou reproduzem seus comportamentos. Portanto, não é aceitável que eles dominem o modo de torcer e deixem que seus preconceitos sejam usados para mover um esporte. O futebol não é instrumento de privilégios, o futebol é do povo, é das mulheres, é da comunidade LGBT, dos homens e é de todas as classes. Quando permitimos a intolerância, ela se instala e se expande em todos os ambientes, e é claro que no país do Futebol a repercussão seria maior.

Reprodução: perfil oficial Esporte Clube Bahia


Normalizar apelidos como “bambi” e “maria” é um reflexo disso também.

Caracterizados como uma forma mais branda de reprodução do preconceito, algumas “brincadeiras de rivalidade” geram polêmica, e torcedores argumentam que o futebol fica chato ao se politizar tudo. É quase uma questão de perspectiva e empatia pois, entender que o uso de tais termos, que não são fundamentalmente uma ofensa, para agredir um rival é inferiorizar a ideia, a pessoa, que o termo carrega. Usar “maria” como uma ofensa é abrir brecha para que a mulher continue sendo um indivíduo torpe socialmente, renegando o valor que a mesma possui quanto ser humano ao ser usada, mais uma vez, como símbolo de fraqueza. O mesmo acontece com o termo “bambi” relacionado à comunidade LGBTQ+.

“Gambá, me diz como se sente?/Por que você gosta de beijar?/ Ronaldo saiu com dois travecos/ Sheik selinho ele foi dar/ Vampeta posou pra G/ Dinei desmunhecou/ Na Fazenda de calcinha ele dançou/ Não adianta argumentar/ todo mundo já falou/ Que o gavião virou um beija-flor”.

Rivalidade de equipes é uma coisa normal, da qual as próprias integrantes do Jogadelas se permitem se divertir entre si e com outras pessoas. Os xingamentos, as provocações tornam o esporte engraçado, o que propomos é a conscientização de saber quando se está ultrapassando os limites, achar que cantos, como o exemplo do parágrafo acima, normais é um exemplo de ultrapassagem dos limites. É crucial entender que a sociedade está em constante evolução, apesar dos trancos e barrancos de cada dia, e que direitos sociais e posicionamentos sobre questões de teor humanitário movem o mundo para o progresso. O estranhamento e refutações em cima disso são reflexos das novas mudanças que vêm criando forma nos últimos anos. O Jogadelas é uma representação disso. E continuaremos a ser enquanto estivermos no nosso direito e importância.

Sejamos um pouco mais Esporte Clube Bahia, então.

 

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