Luciana Mariano: “A gente traça um paralelo ‘futebol feminino’ e ‘masculino’, mas esquecemos que não partimos de espaços iguais”

Pioneira na narração da mulher no futebol, a jornalista concedeu uma entrevista para o Jogadelas relembrando como conseguiu espaço no jornalismo esportivo

  • Produção e texto: Alexia Faria
  • Entrevista: Júlia Cunha

Luciana Mariano, jornalista apaixonada, pioneira e exemplo. Essa é a entrevistada do Jogadelas de hoje. Ela que carrega o cargo de primeira mulher a narrar uma partida de futebol na TV, falou um pouco mais sobre seu início de carreira, um pouco da sua vida pessoal, e da tão famosa pergunta de 1 milhão “por que o futebol feminino não tem tanta visibilidade?”.

Sua carreira começou aos 16 anos, quando o jornalismo e o rádio a encontraram. “Não foi algo planejado. Eu sempre digo que o jornalismo esportivo me encontrou”. Luciana ainda comenta que tudo começou em uma partida de futebol. Ela era a capitã do time, e deu uma entrevista para a rádio que cobriu o evento.

“Estava jogando uma partida de futebol, (não sou boa jogadora, só esse jogo mesmo. Risos). E tinha uma rádio fazendo a cobertura desse jogo, eu era a capitã do time e tinha que dar a entrevista. O narrador disse que eu tinha uma voz legal, uma entonação boa. Perguntou se eu não queria passar na rádio, e assim começou. No início eu fazia resumo de novela, horóscopo, nada ligado ao esporte”, relembra.

Porém, o esporte logo chegou em sua vida. Em uma ocasião, com a falta de um repórter de campo, a jornalista recebeu a um novo desafio. “Me disseram ‘será que você consegue substituir um repórter de campo?’. Eu não sabia, mas disse que sim”. O jogo era do Campeonato Paulista, Série A3.

E quando o assunto é obstáculos e preconceitos, Luciana fala com muita confiança e tranquilidade sobre eles. Segundo a jornalista, hoje em dia o mundo está mais exposto, por isso todos sabem, ouvem e veem casos de preconceito com a mulher jornalista. “Eu não me lembro de nada traumático. Ninguém me xingou, nem me chutou ou bateu, graças a Deus. Mas sei que isso acontece, e hoje em dia temos visto mais. Não porque antes não tinha, e sim porque não tinha uma exposição”.

Luciana relembra o dia que deu o maior passo em relação ao “carinho da torcida”. “Antigamente entrava em campo e eu via que metade da torcida gritava um palavrão, e a outra metade gritava outro palavrão. Sempre com essa história de caracterizar a mulher como um objeto, seja para divertir ou como razão de ódio. Naquela época só tinha eu de mulher ali no interior”, recorda.

Jogadelas Luciana Mariano atua na ESPN (Divugação/ESPN)

“Naquele momento eu pensei: tenho duas alternativas. Ou eu ligo para isso e vou ficar muito triste, chateada, e não vou conseguir fazer o que eu tenho para fazer. Ou eu vou superar isso, fingir que eu não ouvi, e fazer o que eu vim fazer. E naquele momento eu percebi que eu dei um salto dentro de mim, e disse ‘vou superar. O que eu tenho que olhar está aqui (dentro do gramado)’. Ali eu percebi que dei um passo do amadorismo para o profissional”, comenta a jornalista.

A jornalista trilhou e firmou mais ainda o seu caminho no jornalismo esportivo. Foi para a Rádio Gazeta, trabalhar com a sua influência Regiani Ritter, depois passou para a TVN, e mais tarde chegou ao Sportv cobrindo outros esportes além do futebol. Até que surgiu o concurso da Rede Bandeirantes, o Golaço.

“O Mauro Beting, que já me conhecia da Gazeta, me falou do concurso, então eu disse que participaria. Ganhei e assinei contrato com a Bandeirantes”. E a partir daí, ainda nos anos 90, Luciana Mariano começa a mudar a história do jornalismo esportivo no lado feminino.

A jornalista conta com um pouco mais de 40 narrações em seu currículo, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. Hoje, contratada da ESPN, ela vem sendo para muitas meninas o maior exemplo na carreira. “Eu não me considero tudo isso. Ainda me vejo como a mulher do interior, mas entendo que toda vez que vou ao ar, tenho a responsabilidade de fazer um pouco melhor, porque sei que isso pode, de alguma forma, motivar outras meninas a fazer o mesmo. Porque só assim vão surgir pessoas novas”.

Com experiências nos anos 90 e nos atuais, Luciana comenta que antigamente era muito mais fácil fazer seu trabalho. “Naquele tempo a gente ia para o estádio com uma folha de sulfite. Não tinha celular, Google. Não tinha nada. Você ficava menos ansioso, com menos medo. Já hoje, com tanta informação, você fica pensando que tem que saber tudo”, comenta.

E para essa nova frota de narradoras, a jornalista deixa uma dica de ouro. “Se eu pudesse dizer alguma coisa para alguém que está começando agora, eu diria ‘Calma. Você não precisa saber tudo. Vá com o que você sabe, e aos poucos vai agregando conhecimentos’”.  

A narradora ainda tocou num assunto pessoal. O seu relacionamento com o também narrador Luciano do Valle, falecido em 2014. Até hoje, muitas pessoas falam sobre o casamento, e vida profissional, e fazem comparações. “Eu não me incomodo porque as pessoas que dizem isso, primeiro não conhecem bem a história. Porque se conhecessem, não falariam. E segundo porque eu estou muito bem com essa história”.

Luciana recorda que os momentos passados ao lado do narrador foram sim essenciais para sua profissão. “Os dois eram narradores, trabalhavam com esporte. Claro que ele me ajudou muito mais do que eu o ajudei, mas teve uma troca. Era uma troca muito bacana”, continua.

“Meu relacionamento com ele começou depois que eu entrei na Bandeirantes. Então eu sei quem eu fui antes disso, eu sei o que eu fiz até ali, e não teve nada a ver com ele. Claro que a partir dali eu passei a aprender muito mais. Ele foi um grande professor, além de um grande companheiro”.

Por fim, a tão falada visibilidade para o futebol feminino. Como não é segredo para ninguém, a modalidade feminina do futebol não tem tanto destaque assim na mídia brasileira, e para a narradora Luciana Mariano tem uma explicação.

“A questão é que temos menos tempo. Eu posso comparar com a narração. Nós temos narradores aqui que narram há 30 anos, três ou quatro vezes por semana. Na minha carreira eu narrei 40 e poucos jogos. É desproporcional. A gente traça um paralelo ‘futebol feminino’ e ‘masculino’, mas esquecemos que não partimos de espaços iguais”, explica.

A jornalista finaliza o assunto falando do futuro da modalidade. “Do mesmo jeito que eu não posso comparar uma narradora mulher, com um homem hoje, só vamos poder fazer essa comparação (das meninas) quando o futebol tiver a visibilidade, o investimento, e tudo que precisa exatamente ao mesmo tempo que tem o futebol masculino”.

Equipe Jogadelas

Nós do Jogadelasgostaríamos de agradecer abertamente à jornalista Luciana Mariano por ter nos recebido também para essa entrevista. E agradecer também a coragem que ela teve lá atrás de falar, e mudar o pensamento de muitos. E mudar ainda a história do jornalismo esportivo no Brasil.

Não só o país, mas o mundo precisa de mais mulheres como ela, Luciana, e como nós, do Jogadelas, que abrem as bocas, e se colocam a frente de projetos para mostrar que o futebol (e o esporte como um todo) não é só para homens.

Também precisamos de mais meninas no futebol, e mais escolas do esporte destinadas a elas. Porque não adianta tentar visibilidade para a categoria se nas escolinhas o time é composto por cinco meninos, e uma menina. A batalha vem de baixo, e isso faz a diferença sim. Não tem como comparar homem com mulher quando partem de pontos distantes, mas também não é aceitável achar que gênero determina algo.

A preocupação de muitos são “quantos ‘Neymar’ estamos perdendo?”, mas vocês já pararam para pensar em quantas ‘Marta’ estamos e vamos perder se não tiver um bom investimento no futebol feminino? O mundo mudou, e muito. Mas parece que quando se trata de FUTEBOL FEMININO, estamos em 1863 ainda.

Já passou da hora de tampar o sol com a peneira de que gênero e etc definem algo no esporte. É apenas questão de tempo, mas nós mulheres, vamos dominar o mundo.

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