Persistência e trabalho. O elenco campeão que enfrentou longa temporada de jogos e conquistou a taça (Foto: Cesar Greco/SE Palmeiras)

De Roger a Scolari, o Palmeiras em transição

Texto: Jéssica Louzada e Marcella Azevedo

Colaboração: Julia Cunha e Bianca Miquelutti

Na madrugada de 26 de julho, a torcida palmeirense comemorou a queda de Roger Machado e o que levou a isso não foi apenas a derrota contra o Fluminense na noite anterior.

Roger chegou ao Verdão com status de aposta, ideias novas e grandes chances de se consagrar sendo técnico de um elenco recheado de destaques do futebol após o clube ter ganhado dois títulos nacionais nos últimos anos e uma tentativa frustrada de título continental. Porém, o técnico não vinha agradando grande parte da torcida. Inexperiência? Talvez. Teimosia? Pode ser. Mas o que incomodava de fato a torcida era a forma “branda” de Roger ao lidar com um elenco que em campo apresentava um futebol sem expressão, com falhas tolas na zaga, total inconstância e desequilíbrio.

A torcida, fazendo jus a sua fama, cornetava pedindo um ataque com finalizações mais precisas, um meio campo mais veloz, já que os grandes meias do Brasil estão lá, e, principalmente, o fim do conformismo do time em abrir o placar e relaxar até levar um gol. Tal falha técnica se comprova com a estatística de 14 gols levados nos últimos 15 jogos de Roger. Ainda havia a insistência em jogadores, contando os reservas, que tornava o esquema tático do técnico totalmente previsível.

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O sucesso do Scolarismo em 2018 (Foto: Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo)

A paciência se esgotou e o saudoso tão pedido Luiz Felipe Scolari foi anunciado pelo clube. A torcida disse: “O Scolarismo voltou!”

Enquanto aguardavam a apresentação do novo técnico e seu retorno, o Palmeiras entrou em campo contra o Paraná com o técnico da equipe sub 20, Wesley Carvalho, apresentando um futebol totalmente diferente. O time estava mais organizado e o meio de campo mais livre para criação.

Houveram 4 grandes destaques no jogo: Artur, extremamente preciso em todas as jogadas que participou e cheio de garra em campo. Moisés lembrando a torcida do grande camisa 10 que tem e seu talento. Lucas Lima cada vez se destacando mais e mostrando saber aproveitar as chances de gol. Notou-se, ainda, certos pontos de acomodação no time, pois após abrir o placar voltou a relaxar como se estivesse satisfeito. A grande diferença foi o retorno do time no segundo tempo cheio de gás e um placar de 3×0.

Já com Paulo Turra no banco, o Palmeiras enfrentou o Bahia pela Copa do Brasil apresentando uma zaga bem mais equilibrada e consistente, mas ainda com falhas nas laterais. No ataque, Deyverson (o alvo das cornetas palmeirenses no trabalho de Roger) foi o grande destaque por um jogo bem feito, indiscutível falar que não houve vontade do atacante.

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O aproveitamento de Deyverson no segundo turno do campeonato (Foto: Agência Palmeiras)

Em 05/08, contra o América-MG, o Felipão fez a sua estreia pela terceira vez no clube alviverde. O time criou chances, e teve a melhor do jogo nos pés de Jean, que desperdiçou o pênalti, mas não foram suficientes para que Scolari comemorasse sua primeira vitória, chegando a se sentir pressionado com boas chances do clube mineiro.

Finalizações totalmente aproveitadas, meio de campo criativo e veloz, desempenho das laterais, zaga cirúrgica nos lances e, claro, um time de garra brigando por títulos é o que se esperava com a volta do grande técnico que é o Felipão com suas características de “técnico raiz”.

Mas nem o mais otimista torcedor imaginava que o trabalho de Felipão iria mudar o Palmeiras da água para o vinho. Foi uma mudança de postura que deu um resultado excelente.

A obsessão da torcida era a Libertadores. O time não chegou à final por detalhes. O resultado não foi tão bom, mas o Palmeiras seguia firme na campanha do Brasileiro.

Marcado pela intensidade, Felipão utilizou muito bem os jogadores Bruno Henrique, William, Dudu e em alguns momentos Deyverson, para acelerar as jogadas e recuperar a posse de bola. Características que distanciam o modo de trabalhar de Scolari e Roger Machado, o primeiro mais vertical e o segundo focado na posse de bola e no toque com finalizações mais precisas. A presença de Bruno Henrique, tanto na recuperação da bola como na infiltração em campo fez com que o jogador marcasse gols importantes e necessários na competição.

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Dudu elevou a qualidade no meio campo do Palmeiras (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

O “ultrapassado” técnico Luis Felipe Scolari, ultrapassou todos da tabela e quebrou um recorde que era do próprio Palmeiras: 44 pontos em 18 jogos (o recorde pertencia ao Palmeiras de 2016, com os mesmos 44 pontos, mas em 19 partidas).

Vale lembrar que nesse caminho, o medalhão conseguiu quebrar um jejum que perdurava há 17 anos, que era ganhar do São Paulo no Morumbi.

Felipão conseguiu montar dois times com o elenco do Palmeiras e mais do que isso, recuperou jogadores que foram importantes demais nessa conquista, exemplo de Deyverson. O menino maluquinho do Palmeiras, fez gols importantes e mostrou que era necessário na tática do professor. Foi dele o gol que fez o Palmeiras se consagrar Decacampeão brasileiro!

Isso sem contar a incrível atuação do camisa 7 Dudu, grande destaque do campeonato, que para muitos foi considerado não somente o melhor jogador do Palmeiras mas o melhor jogador de todo o Brasileirão. O meia-atacante sentiu a diferença tática proposta por Scolari tendo maior liberdade para ser criativo em sua posição, participando do jogo com a bola nos pés ou não. O casamento perfeito do ritmo acelerado do Palmeiras e com a agilidade do jogador.

A consistência e a segurança do sistema defensivo de Scolari também merecem a narrativa no texto. A confiança que Felipão deu para o zagueiro Gustavo Gomez fez com o que jogador atuasse com muita qualidade. Roger Machado costumava utilizar mais a dupla Edu Dracena e Antônio Carlos, nomes não menos importante durante a trajetória do Deca. O ponto forte do Palmeiras é o fato de não ter que desmanchar o seu elenco para a próxima temporada e se alguém for embora, tem boas peças para reposição já integrados ao elenco.

A intensidade de Felipão e sua personalidade, um pouco questionada no início, foram fundamentais para a conquista do título, pois além das transformações técnicas, o time apresentou uma identidade de garra que não se via há algum tempo na equipe alviverde. O que teremos do Palmeiras e do Scolarismo em 2019? Vamos aguardar…

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