Torcida feminina do Atlético compareceu ao amistoso no Mineirão (Foto: Layla Seabra/Jogadelas)

Opinião: Voe Mulher e o mês histórico de protagonismo feminino no futebol

Por Layla Seabra

Em nosso país, o futebol feminino era proibido até 1989, o que significa que qualquer estímulo para a ocorrência da modalidade é algo novo e quase inexplorado.”

Pode-se dizer que 2019 é um ano divisor de águas para o futebol feminino no Brasil. Começamos o ano com a efetivação, por grande parte dos Clubes da série A, das modalidades femininas em suas estruturas, relembrando que essa mudança se deu por um processo normativo da CBF, o qual equipes sem uma modalidade feminina funcionando em seu nome, não poderiam participar da Libertadores 2019. Uma medida forçada, mas determinante em muitos sentidos.

Não obstante a reformulação nos campeonatos femininos no Brasil, na Espanha aconteceu o que todos pensávamos ser inatingível, por ora: recorde de público no Wanda Metropolitano para uma partida oficial entre Atlético de Madrid x Barcelona, na categoria feminina. Foram mais de 60 mil espectadores prestigiando um bom futebol, com passes e cruzamentos cirúrgicos, marcação acirrada e ausência do fator fragilidade tão associado à mulher.

Jogadoras do Atlético-MG no aquecimento durante o amistoso no Mineirão (Foto: Layla Seabra/Jogadelas)

Na Itália, um outro novo recorde de público para assistir as jogadoras da Juventus na briga pelo campeonato italiano. Em Belo Horizonte, o primeiro evento de empreendedorismo feminino dentro de um estádio de futebol, pela Voe Mulher, rompendo o grande tabu que é a presença feminina dentro do mesmo, dentro e fora de campo. Neste, o Jogadelas esteve presente.

Na arquibancada encontramos, majoritariamente, mulheres. Esse é um dos reflexos da representatividade, uma vez que, nos gramados, era o momento delas também. Do campo à torcida, todas estavam envolvidas em sinergia de apoio e uma tradução genuína de sororidade. O termo ainda é um tanto quanto abstrato e, contraditoriamente, é no futebol, um dos meios mais masculinizados do mundo, que vimos seu auge.

Entretanto, por que o futebol feminino brasileiro se destoa tanto do europeu? Ou mesmo do americano? Durante a partida, notamos uma distância entre a qualidade tática das jogadoras do América MG em comparação às do Atlético. As americanas, com mais tempo de atuação no mundo profissional futebolista, ganharam de 3×0 das alvinegras, demonstrando superioridade técnica. Apesar disso, ainda seriam díspares se comparadas ao futebol masculino. Esta desigualdade dá-se, sim, pela falta de investimentos e visibilidade, mas existem dois outros aspectos ainda mais incisivos: falta de categorias de base femininas e a história social das mulheres no Brasil.

Em nosso país, o futebol feminino era proibido até 1989, o que significa que qualquer estímulo para a ocorrência da modalidade é algo novo e quase inexplorado. Ainda vivemos em meio a uma geração que está acostumada com valores que marcaram o período ultraconservador do Regime Ditatorial, estamos constantemente entrelaçadas com a história do território que nascemos. Não é possível excluir da equação a forma como modelamos a sociedade.

O Estado Novo criou o decreto 3.199 que proibia às mulheres a prática de esportes considerados incompatíveis com as condições femininas, sendo o futebol incluso entre outras modalidades esportivas como halterofilismo, beisebol e lutas de qualquer natureza. O Período Militar também inviabilizou a prática reconhecida do futebol pelas mulheres, sendo permitido apenas na década de 1980, pelo Conselho Nacional de Desporto.” – Pensar a Prática, Leonardo Tavares Martins e Laura Moraes

É por isso que caminhamos mais devagar, pois além das problemáticas atuais em relação à investimento e visibilidade, temos questões históricas que caracterizam a trajetória das mulheres no esporte, que deram espaço para o cultivo da misoginia em nosso país. A perspectiva da mulher jogadora, torcedora e jornalista esportiva são complementares à sua conquista sólida no meio profissional.

Concluímos, então, que o evento da Voe Mulher, assim como todos os eventos protagonizados por mulheres, tem sua importância, pois ele significa a valorização do feminino de forma igualitária e de ressocialização da mulher.

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