Por Layla Seabra

Mulher.

Mulher. Substantivo de tamanha atitude que deveria ser verbo. Eu, mulher. Simone de Beauvoir já disse, “não se nasce mulher, torna-se”, exemplificando bem a complexidade desse gênero. O que é ser mulher para mim pode não ser o que é sê-lo para outrem.

Um exemplo: para as brancas, o mundo possui cores diferentes do que para negras, algumas portas abertas a mais, mãos para ajudar a levantar, menos pés procurando dar-lhe rasteiras pelo simples fato de ter nascido com um par de seios. Para negras, o mundo se assemelha a estar em um jogo sendo eternamente marcada por Felipe Melo, cheio faltas, tipos de violência que não se vê em toda partida, desprezo pelo bem da jogadora. 90 minutos demasiadamente longos.

Ser mulher no hemisfério Sul do planeta não é o mesmo que ser mulher no hemisfério Norte, da mesma forma que há um abismo sócio-cultural entre o Oriente e o Ocidente. O ser humano em si é um compilado de construções sociais, oriundas de heranças históricas, estruturais e políticas. E isso reflete não apenas no olhar e hábito de um indivíduo sobre um semelhante, mas sobre as diferenças.

Tornar-se mulher é filtrar e enfrentar tais construções, sem negar que, ao mesmo tempo, estas fazem parte da própria individualidade, situando-se no mundo das contradições, tentando não se perder no meio delas.

Se somos, em parte, resultado de construções sociais, como somos vistas pelos outros membros de uma mesma sociedade?

Jogadelas Reprodução/UOL

O que o homem, como elemento social, enxerga e entende sobre o indivíduo Mulher? Como isso nos afeta?

No último jogo na Arena Fonte Nova entre Bahia e Avaí, pela 3ª rodada do Campeonato Brasileiro Série A, mais do mesmo: torcedoras sofrendo assédio. O relato da torcedora Maria Ribeiro, em entrevista com a UOL Esporte, é uma agulha no palheiro dos tantos depoimentos de mulheres que frequentam estádios.

Maria Ribeiro fez seu relato através do Twitter.

Parece que a mulher está sob constante ameaça, esta que vem de todos os lugares, a qualquer momento, com qualquer roupa, sob qualquer teto. O Bahia Esporte Clube é o time mais democrático do Brasil (provavelmente de toda a América Latina), e contribui para pautas sociais com o Núcleo de Ações Afirmativas, implementado em suas estruturas para bater de frente, principalmente, com o cenário de violência contra a mulher e contra o racismo.

O Bahia se pronunciou através do Twitter.

Essa vertente do trabalho feito pelo Clube possui resultados de conscientização e pesquisa relevantes, o que promove um ambiente mais seguro para que a diversidade nativa do Brasil possa usufruir nos estádios durante suas partidas, entretanto, os números ainda chocam.

Os números dos gráficos comprovam uma problemática que remete à reflexão dos primeiros parágrafos: a forma como os homens enxergam as mulheres é violento. A herança histórica do mundo nos deixou uma cultura patriarcal que objetifica a mulher na sociedade, é uma construção social que julga o corpo feminino como mero objeto de prazer.

Eis uma obviedade, que parecem gostar de ignorar: não somos objetos.

Um torcedor inconveniente se sentiu confortável a constranger um grupo inteiro de mulheres, pois, em algum lugar desconhecido do cérebro masculino, ele se sentiu melhor que elas. O abuso vindo de homens é algo tão violento que, se fosse em uma situação contrária, a mulher sentiria medo do grupo de homens, jamais confortável para se enfiar no meio deles. E isso não é normal. E tem que acabar.

Frequentar um estádio (e qualquer lugar) é um direito fundamental de todo e qualquer ser humano, não há cultura ou herança histórica que contradiga isso. Mulheres permanecerão frequentando eventos esportivos e, juntas, denunciaremos abusos até que o respeito seja naturalizado. Trabalhamos, individual e coletivamente, para tornarmo-nos mulheres em essência, sem permanecermos presas a paradigmas que foram criados com fins de dominação.

O Jogadelas repudia toda forma de violência no futebol.

Homens, melhorem!

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