Divulgação/Vasco

Por Bianca Miquelutti

“É necessário sempre acreditar que o sonho é possível.
Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível.
Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase.
Que o sofrimento alimenta mais a sua coragem.
Que a sua família precisa de você,
Lado a lado se ganhar, pra te apoiar se perder.”

Já cantavam os Racionais MC’s em A Vida é Desafio, música que inspira meninos por gerações, principalmente aqueles que vivem o sonho do futebol. Em um dos registros da SPFCTv certa vez, é possível ver Sidão cantando esse trecho da música, agora entendemos a intensidade de cada palavra.  

Sidney Aparecido Ramos da Silva é o nome completo de Sidão. Provavelmente nem eu e nem você sabíamos disso porque o que conhecemos sobre ele é exatamente aquilo que se passa na TV. Mas Sidão não é só o goleiro do Vasco. Sidão não é só um goleiro. Ele tem nome, sobrenome, família, história… Assim como eu, assim como você.

Na noite do último domingo (12), o futebol brasileiro protagonizou uma das cenas mais constrangedoras da imprensa esportiva. Ao entregar o troféu “Craque do jogo” votado por internautas da Rede Globo para Sidão, todos nós sentimos a dor do atleta em estar vivenciando aquele momento. Pela 4ª rodada do Campeonato Brasileiro, o Vasco perdeu de 3 a 0 para o Santos, no Estádio do Pacaembu. Sidão era o goleiro titular na partida. A beleza do futebol treinado por Sampaoli merecia todo o destaque da rodada, mas foi a humilhação que o goleiro passou que ganhou os holofotes.

Envergonhado ao receber o prêmio em rede nacional após colecionar inúmeros erros no gol em uma atuação explicitamente ruim, Sidão manteve a calma, e mesmo sem falar muitas palavras, seus olhos marejados de lágrimas e sua cabeça baixa dizia muito. A repórter Júlia Guimarães também estava constrangida ao ter que entregar o troféu para o atleta, a jornalista da Globo se desculpou e expressou sua solidariedade ao atleta através das redes sociais. Percebe-se o mal estar da jornalista em entregar o “tal troféu”.

Sidão começou muito cedo no futebol e como todo menino pobre do Brasil, sonhava em ser um grande jogador profissional e proporcionar uma nova condição de vida para sua mãe. Seu início promissor na base do Corinthians não foi o suficiente para manter o atleta no esporte.

O goleiro se envolveu com drogas e bebidas ainda na adolescência e entrou em uma forte depressão após perder a mãe nessa fase obscura. Para ele, não fazia mais sentido continuar vivendo sem a presença de sua mãe, o que o fez cogitar suicídio inúmeras vezes.

Além de se sentir responsável pela morte dela, Sidão se viu sem suporte e decidiu que o único caminho a seguir seria abandonar a carreira no futebol para começar a trabalhar como segurança em eventos.

Mesmo que o atleta optasse por não jogar futebol, o futebol já o tinha escolhido. Ainda como segurança, o goleiro foi convidado para jogar no Taboão da Serra e após atuar como goleiro titular pelo Audax-SP, foi vice Campeão Paulista em 2016. A grande campanha com a equipe de Osasco permitiu com que o goleiro fosse contratado por times de grande expressão nacional como Botafogo, São Paulo, Goiás e agora Vasco.

Persistência gigantesca dentro e fora dos gramados. Pelo São Paulo, se diz muito sobre a forma como Sidão saiu do clube, mas é possível lembrar que o goleiro viveu momentos importantes com o time tricolor e ajudou a equipe na fase mais difícil. Qual são paulino não se lembra das defesas salvadoras de Sidão enquanto saíamos da temida zona do rebaixamento em 2017?

Sidão claramente está em uma má fase, inseguro, sem confiança, mas não é um mau goleiro. Sidão é um profissional de alto nível que treina todos os dias para melhorar o seu desempenho e que busca se renovar agora em um novo clube. O futebol brasileiro peca pelo imediatismo e não espera que atletas ou técnicos possam se recuperar, uma vez que se ocupa muito em tentar rebaixá-los.

Somando tais fatores ao racismo, Sidão entra pra lista de goleiros que acabam sendo responsabilizados pela baixa qualidade de um time todo. Além de seus próprios resultados, foram as críticas, vexatórias e debochadas, que fizeram com que Muralha tenha se mudado para o Japão e visto a sua imagem ser manchada pelo país inteiro. Quando o Brasil perdeu a final da copa de 50 para o Uruguai em pleno Maracanã, jogaram a culpa completa em cima do goleiro Barbosa, que repetiu tal frase por anos: “No Brasil, a pena máxima (de prisão) é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”.

Mais tarde, os comentaristas Walter Casagrande e Roger flores pediram desculpas à Sidão. Clubes como São Paulo, Palmeiras e Santos se solidarizaram com o atleta e a Rede Globo reconheceu seu erro e mudou as regras da premiação para evitar novos casos vexatórios. Em tempos em que se busca tratar o futebol de forma mais séria, não chata, mas mais humana e inclusiva, perdemos de goleada contra os princípios que queremos fortalecer no esporte.

Em pleno dia das mães, carregando o nome de sua maior incentivadora nas costas, Sidão foi motivo de risos e piadas por um país inteiro. Uma partida que poderia ter sido considerada apenas ruim para muitos outros goleiros, para Sidão ficou marcada como o pior dia de sua carreira, e é isso que a piada sem limites no esporte causa. Muitos se esquecem que ali não existe somente a figura pública do goleiro, existe um ser humano que merece ser respeitado.

O infeliz acontecimento partiu não somente da emissora ou do incentivo de canais esportivos de humor, mas de todo um comportamento infantil existente no Brasil que coloca a “zoeira” em primeiro lugar na tabela. Cabe uma reflexão sobre a “zueira sem limites”, a partir do momento que ultrapassa o desrespeito ao ser humano. O canal Desimpedidos promoveu a votação do goleiro em suas redes sociais.

Temos que ter responsabilidade em tudo que fala e diz, pensar mil vezes antes de machucar alguém. Quando um canal de enorme alcance propõem uma brincadeira, é claro que vai se aplicar. O futebol da internet se limita entre duas escolhas, a zueira e a ética. Claro que vai se escolher a “zueira”, ainda mais por uma plataforma que busca o “entretenimento futebolístico”.

O caso do Desimpedidos é uma case para se analisar. Mesmo que se a Globo não entregasse o troféu, não apaga o fato do canal ter promovido os internautas a votarem no goleiro. O maior público é de molecada e crianças, não têm muita convicção em pensar e nem amadurecimento para se por no lugar do atleta. O poder de influenciar para zombar um cara dessa maneira, ensina de certa forma, uma brincadeira de humilhação.

Não dá para crucificar, o canal promoveu muitos eventos legais como a entrega do Prêmio Puskas (gol mais bonito do mundo) 2016 para o ex-jogador Wendell Lira, e o Prêmio Laurens à Chapecoense, no ano de 2018. O desimpedidos soltou uma nota pedindo desculpas.

Estamos com você Sidão e nos solidarizamos com esse momento complicado na sua carreira e vida. Que o futebol possa se moldar com seus erros, se firmando com um ambiente mais saudável, humano e democrático. Que você possa se recuperar e se reencontrar no esporte que tanto amamos. Força!

1 thought on “Ao ser humilhado em rede nacional, Sidão nos faz questionar a zoeira no futebol

  1. Bianca que bela matéria, eu como muitos que não entendem nada de futebol lê essa matéria e acaba vendo no contexto que Futebol não é só um esporte, é uma Vida inteira….que matéria boa mesma.

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