Foto: Albari Rosa

Por Layla Seabra

A geração de agora, tampouco a próxima, não irá viver para experienciar uma sociedade em pé de igualdade, isso é fato, o progresso e evolução humana se dá a passos quase de formiga. E é nesse espectro que presenciamos as mais variadas barbaridades, cometidas por uns que acreditam estar uns degraus acima de outros na escada da importância para o mundo.

Claro que é um equívoco sem tamanho, pois as bolhas sociais que vivemos dizem pouco a respeito da realidade como um todo. Para uns, a bolha não os permite enxergar muito longe o lugar que se pode ocupar no mundo, lhe faltam oportunidades; outros, cegos pela quantidade de privilégios a sua volta, enxergam apenas o seu lugar no mundo, fazendo crescer uma arrogância pífia, sempre pífia, se colocando em uma posição que não ocupa.

Você já ouviu falar de Mario Celso Petraglia? Empresário e dirigente esportivo, atual presidente do conselho do Clube Athletico Paranaense, é o retrato de um dos perfis citados acima e, com a última polêmica lançada pelo dirigente, você entenderá em qual ele se encaixa.

Na tarde da última segunda-feira (13), o Mario Celso Petraglia concedeu uma coletiva de imprensa para esclarecer sobre os casos de doping dos jogadores do Athletico, Camacho e Thiago Heleno após serem descobertos em exames. Uma das entrevistadoras, Luana Kaseker, da Gazeta do Povo, durante seu trabalho e exercendo bem sua competência, foi tratada de maneira machista e totalmente antiprofissional por parte do dirigente:

Luana Kaseker:Aproveitando que o senhor está aqui, a gente queria saber sobre o balanço que foi divulgado recentemente, referente à dívida da Arena. A gente viu que está num valor maior, de 400 milhões, queria saber se isso preocupa [nesse momento, Luana foi interrompida].

Mario Celso Petraglia: Minha filha.O que me preocupa hoje é a situação do doping. Isso, sim, não tem preço. A dívida do estádio é nada perto dessa dívida nossa. Então, por favor, respeite a nossa posição, vamos falar sobre o antidoping, porque é para isso que a senhora foi convocada, ou senhorita.

Luana Kaseker: Está ok, queria só aproveitar… [novamente interrompida] Mario Celso Petraglia: Se tem alguma pergunta sobre o doping, estou aberto.

Luana Kaseker:Então, queria saber, na verdade, sobre o Bruno Guimarães. Ele acabou ficando de fora do jogo contra o Boca [interrompida de novo]

Mario Celso Petraglia:Só poderia partir da Gazeta do Povo essa ilação. Já não lhe disse que foram ilações, conclusões errôneas, que acharam isso, acharam aquilo. Acabei de afirmar que seu Bruno Guimarães não estava envolvido e a senhora volta com a pergunta. O que você pretende? Mais uma vez ajudar a prejudicar a imagem de atletas que não estão envolvidos? Por favor. Estou pedindo que ajudem a melhorar, a minorar a imagem dos atletas envolvidos, e a senhorita, ou senhora, não sei, vem a prejudicar atletas que não estão envolvidos? Olha, se continuar nesse caminho, a próxima entrevista coletiva a Gazeta do Povo estará proibida de entrar.

Luana Kaseker: Tudo bem, presidente.

Mario Celso Petraglia: Está bom?

Luana Kaseker: Apenas… [interrompida pela 4a vez]

Mario Celso Petraglia: Por favor, cale-se, então.

Luana Kaseker: Tudo bem, obrigada.

Mario Celso Petraglia:Não tem que agradecer, porque isso não merece agradecimento. Isso merece desculpas da sua parte.

Além do constrangimento à profissional, o veículo para o qual ela trabalha sofreu ameaça de censura, única e exclusivamente, porque o dirigente se sentiu irritado com as perguntas, válidas, profissionais e de total direito da repórter a fazer.

Mario já se envolveu em casos de polêmica pelo Athletico, sempre com um perfil mais conservador e demasiado ríspido, remetendo a um chefe autoritário. Isso nos faz voltar ao pensamento inicial do texto: o que faz Mario pensar que pode se referir à pessoas com tamanha insensibilidade e desrespeito? Tal atitude irritou internautas e, em especial, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, que publicou a seguinte nota:

NOTA DE REPÚDIO

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR) repudia com veemência mais um ataque ao livre exercício profissional proferido pelo presidente do Conselho Deliberativo do Clube Athletico Paranaense, Mario Celso Petraglia.

O dirigente humilhou e hostilizou a jornalista Luana Kaseker da Silva Freire, do jornal Gazeta do Povo, durante uma coletiva de imprensa nessa segunda-feira (13), ao mandar a profissional se calar e impedir que ela concluísse uma pergunta. Petraglia também ameaçou não liberar mais a participação do jornal em futuras coletivas do clube.

Mesmo que a coletiva convocada pelo Athletico fosse sobre a situação de doping de atletas, bastava ao presidente dizer que não responderia à questão quando foi questionado sobre a dívida da Arena da Baixada.

A falta de respeito com profissionais da imprensa se tornou corriqueira, mas é lamentável e inaceitável. Impedir jornalistas de trabalhar por não gostar das perguntas feitas viola o livre exercício profissional.

Casos de violência contra jornalistas vêm crescendo muito no Brasil, especialmente quando existem mulheres trabalhando na cobertura esportiva. O setor está entre os que mais registram situações de intimidação, assédio, machismo e agressão. Não podemos permitir que isso continue acontecendo.

O SindijorPR reitera, mais uma vez, sua postura intransigente em defesa do livre exercício profissional e do respeito ao trabalhador jornalista, que exerce ofício tão caro à sociedade democrática. “

Em tempos em que a imprensa brasileira vem sofrendo com ataques múltiplos, é necessário que a comunidade jornalística mantenha-se unida contra golpes que implicam na sua liberdade, conferida constitucionalmente, conferindo integridade aos profissionais do ramo, tão importante para a distribuição de informação de qualidade e até mesmo para a manutenção de uma democracia saudável.

Além disso, é imprescindível ressaltar o machismo presente na fala de Mario; ao interromper Luana em praticamente todas as suas tentativas de fala; ao chamar a repórter de “minha filha”, em tom pejorativo; ao começar todas as suas falas colocando-se em posição de superioridade, com autoritarismo.

A equipe Jogadelas reitera o repúdio pelo tratamento à Luana como ser humano, profissional e mulher.

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